quarta-feira, dezembro 29, 2004

Artur Xexéo pra presidente

Globo, 29/12/2004

Este é o ano da mala a 1 real

Tenho certeza de que o leitor, às vezes, teve a impressão de que este concurso não acabaria nunca. Mas acabou. Chegamos ao fim. Já contamos todos os votos. Foram dezenas de centenas de milhares de cédulas vindos de todo o planeta com uma só denúncia: É mala! Depois de passar o ano inteiro sofrendo com os aborrecimentos provocados por um grupo de malas que tomou conta do Brasil, o eleitor se revoltou e soltou o grito que não quer calar: Basta! É a hora da vingança. Vamos delatar, nome por nome, as malas que tanto nos incomodaram.

No estilo de um concurso de misses, passaremos a nominá-las de trás para frente. Assim, começamos pelo décimo lugar.

Foi uma candidatura lenta e gradual. Desde o início do certame os votos pingaram, um a um, pouco a pouco, vaticinando seu nome. No fim, ele teve eleitores suficientes para ficar entre os dez mais. É o coronel-bombeiro Marcos Silva. Se você não está ligando o nome à pessoa, aqui vai a descrição que o leitor R.R.R. (o voto é secreto) encontrou para a mala: “É aquele senhor cheinho, de voz desagradável, que, semana sim, semana também, aparece no ‘RJTV’ dando entrevistas. Seja para desencalhar a baleia em Niterói, seja para capturar a capivara no Leblon, seja para qualquer matéria sobre praia, lá está, na nossa TV, o arroz de festa dos bombeiros.” Como se vê, é um caso típico de mala com uma melancia pendurada na alça.

Vencida esta etapa, passemos para o nono lugar. Aqui, já aparece a tendência do ano de se votar em casal: Ronaldinho Cicarelli e Daniela Fenômeno, ops, Ronaldinho Fenômeno e Daniela Cicarelli. A dupla do amor à primeira vista, do casamento que já foi marcado e desmarcado oito vezes, dos castelos que não são grandes o suficiente para caber todos os convidados, das reformas no apartamento de Madri, das pizzas que eles devoram na Capricciosa, das tardes de domingo na churrascaria de Ipanema... Chega! Chega! É uma mala esportiva, cheia de decalques com marcas famosas porque não se pode perder a chance de fazer o merchandising. Uma mala dupla, que está pronta para ser esquecida na Ilha de Caras.

No oitavo lugar, aparece a primeira mala televisiva: João Cléber. É aquele comediante que ciscou por todas as estações de TV até encontrar um pouso permanente na Rede TV! É uma mala escandalosa com uma ou outra aplicação de botox. A mala poltergeist. O espectador torce para que, logo, logo, seja abandonada numa esteira.

No sétimo lugar, está a mala que fez campanha só no finzinho do concurso, mas teve força bastante para figurar entre as dez mais: a capivara da Lagoa. Uma mala selvagem, que, de vez em quando, faz par com a colunista Cora Rónai — nem toda companhia de mala é mala — que está sempre escorregando das mãos do secretário do Meio Ambiente, Ayrton Xerez. Uma mala que, todos torcem, deve ficar para sempre numa reserva ecológica.

Chegamos ao sexto lugar para encontrar, enfim, uma mala republicana. Uma mala que vem de Brasília. E ela teve vários votos como bagagem acompanhada da mala de bigode Aloizio Mercadante. Mas teve muitos votos também para se impor sozinha entre os dez mais: Zé Dirceu, a mala caipira.

A força da televisão reaparece na mala classificada em quinto lugar: Clodovil. Esta mala sem alça é velha conhecida do concurso de malas. Nem é preciso explicar muito, certo?

Uma estréia aparece em quarto lugar: Fabiano Augusto. Dizendo assim, é capaz de o leitor não o identificar. Explicando melhor, é o garoto-propaganda das Casas Bahia. É tão mala, mas tão mala, que o anunciante resolveu lhe dar uma companheira de trabalho, na esperança de diminuir os índices de malice. Mas, na verdade, o índice dobrou. O problema é que os dois são iguaizinhos. Ninguém sabe quem é um, quem é outra. Ou vice-versa. Um caso cabal de mala dupla e, portanto, pesadíssima.

Em terceiro lugar, outra mala republicana, outra mala dobrada: o casal Lula e Marisa. O eleitor L.O.B. justifica o voto: “Cometeu gafes, me tirou o sono e nem mandar representante a enterro em hora certa conseguiu. Enterro e velório, aliás, são os lugares em que costuma se dar mais mal. Indo ou não indo. É uma mala de fundo molhado”. Fundo molhado? Pesa mais, então. Mas este voto é só para o Lula. E dona Marisa? Bem, esta é uma mala vazia. Só está ali para dividir o peso com a mala maior e não pagar excesso de bagagem.

Rufam os tambores para a apresentação do segundo lugar, a mala vice-campeã, a mala que quase quase chegou lá, mas que promete se esforçar para atingir o posto de liderança no ano que vem: Luma de Oliveira. Como o amor é azulzinho, esta é uma mala vermelhinha, da cor do Corpo dos Bombeiros.

E agora a grande revelação do ano, a mala que chegou em primeiro lugar. Aqui é preciso explicar: houve muitos votos para a governadora Rosângela Matheus, outros tantos para o primeiro consorte Tony Matheus, muitos ainda para o casal de governadora e ex-governador e, enfim, votos para a primeira filha, Clarisse Matheus. O jeito foi somar todos os votos e chegar à maioria absoluta. Os Garotinho ganharam, um caso evidente de conjunto de malas. Temos a mala-baú, a mala a tiracolo e a frasqueirinha. Juntas, são imbatíveis. Todas cor-de-rosa. De papelão. Com alça de barbante. Molhadas. Impossíveis de carregar.