terça-feira, março 09, 2004

Máscaras

PERSONAGENS:
Arlequim : Um desejo
Pierrot : Um Sonho
Colombina: A Mulher


Em qualquer terra em que os homens amem.
Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
Na vida.

BEIJO DE ARLEQUIM

I

O crescente cintila como uma cimitarra. Lírios longos, grandes mãos
brancas estendidas para o luar, bracejam nas pontas das hastes. Uma
balaustrada. Uma bandurra. Um Arlequim. Um Pierrot.
E, sobre as máscaras e os lírios, a volúpia da noite, cheia de arrepios e de aromas.


ARLEQUIM diz:
Foi assim: deslumbrava a fidalga beleza da turba nos salões da Senhora Duquesa.
Um cravo, em tom menor, numa voz quase humana, tecia o madrigal de uma antiga pavana. Eu descera ao jardim. Cheirava a heliotrópio e vi, como quem ve num vago sonho de ópio, uma loura mulher...

PIERROT
Loura?

ARLEQUIM
Como as espigas...
Como os raios de sol e as moedas antigas...Notei-lhe, sob o luar, a cabeleira crespa,
anca em forma de lira e a cintura de vespa, um cravo no listão que o seio lhe bifurca,
pezinhos de mousmé, olhos grandes, de turca... A boca, onde o sorriso era como uma abelha, recendia tal qual uma rosa vermelha.

PIERROT
Falaste-lhe?

ARLEQUIM

Falei...

PIERROT
E a voz?

ARLEQUIM
Vaga e fugace.
Tinha a voz de uma flor, se acaso a flor falasse...

PIERROT
E depois?

ARLEQUIM
Eu fiquei, sob a noite estrelada, decidido a ousar tudo e não ousando nada...
Vinha dela, pelo ar, espiritualizado numa onda volúpia, um cheiro de pecado...
Tinha a fascinacão satanica, envolvente, que tem por um batráquio o olhar duma serpente... e fiquei, mudo e só, deslumbrado e tristonho, sentindo que era real o que eu julgava um sonho! Em redor o jardim recendia.
Umas poucas tulipas cor de sangue, abertas como bocas, pela voz do perfume insinuavam perfídias...

Tremia de pudor a carne das orquídeas... Os lírios senhoreais, esbeltos como galgos,
abriram para o céu cinco dedos fidalgos fugindo a mão floral do cálix longo e fino.
Um repuxo cantava assim como um violino e, orquestrando pelo ar as harmonias rotas, desmanchava-se em sons, ao desfazer-se em gotas! Entre a noite e a mulher, eu tr?mulo hesitava: se a noite seduzia, a mulher deslumbrava!
Dei uns passos
Ao ruído agitou-se assustada. Viu-me...

PIERROT
E ela que fez?

ARLEQUIM
Deu uma gargalhada.

PIERROT
Por que?

ARLEQUIM
Sei lá! Mulher...Talvez porque ela achasse ridículo Arlequim com ar de Lovelace...
Aconcheguei-me mais: 'Deus a guarde, Senhora!'
- Obrigada. Quem és?
- 'Um arlequim que a adora!'

Vinha do seio dela, entre a renda e a micanga, um cheiro de mulher e um cheiro de cananga. Eram os olhos seus, sob a fronte alva e breve, como dois astros de ouro a arder num céu de neve. Mordia, por não rir, o lábio úmido e langue, vermelho como um corte inda vertendo sangue...E falei-lhe de amor...

PIERROT
E ela?

ARLEQUIM
Ficou calada...
Meu amor disse tudo, ela não disse nada, mas ouviu , com prazer, a frase que renova
no amor que é sempre velho, a emocão sempre nova!

PIERROT
Que lhe disseste enfim?

ARLEQUIM
O ardor do meu desejo,
a glária de arrancar dos seus l?bios um beijo, a volúpia infernal dos seus olhos
devassos, o prazer de a estreitar , nervoso, nos meus bracos, de sentir a lascívia heril dos seus meneios, esmagar no meu peito a carne dos seus seios!

PIERROT, assustado:
Tu ousaste demais...

ARLEQUIM, cínico:
Ingenuo! A mulher bela adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o homem enamorado se arrepende, afinal, de não ter tudo ousado.

PIERROT
E ela?

ARLEQUIM
Vinha pelo ar, dos zéfiros no adejo, um perfume de amor lascivo como um beijo, como se o mundo em flor vibrasse, quente e vivo, no erotismo triunfal de um amor coletivo!


PIERROT, fremindo:
E ela?

ARLEQUIM
Ansiando, ouviu toda essa paixão louca, levantou-se...

PIERROT
Depois?

ARLEQUIM , triunfante:
Deu-me um beijo na boca!

Um silencio cheio de framito. Os lírios tremem. Pierrot olha o crescente. Arlequim dá um passo, ve a brandura, toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído, as cordas que gemem.

ARLEQUIM
Linda viola.

PIERROT, alheado:
Bom som...

ARLEQUIM
Que musicais surpresas não encerra a mudez destas cordas retesas...

Confidencial a Pierrot:
Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher, diferenca nenhuma. Questão de dedilhar, com certa audácia e calma, numa...estas cordas de aco, e na outra...as cordas d'alma!

Suavemente, exaltando-se:
O beijo da mulher! É sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na boca... No contado do lábio, onde a emocão acorda, sentir outro vibrar, como vibra uma corda... É vaga orquestracão da frase que sussurra ver um corpo fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música que canta no gemido de amor que morre na garganta...Colar o lábio ardente á flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos subindo...até alcancar a boca e escutar, num arquejo, o universo parar na síncope de um beijo!

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Eis toda a arte de amar! Eis, Pierrot fantasista, a suprema criacão da minha alma de artista. Compreendes?

PIERROT, ansiado:
E a mulher?

ARLEQUIM, lugubremente:
A mulher? É verdade...
Levou naquele beijo a minha mocidade.

PIERROT
E agora? Onde ela está?

ARLEQUIM, ironicamente místico:
No meu lábio, no ardor desse beijo, que é todo um romance de amor!

Seduzido pela angústia da saudade:
No temor de pedi-lo e na glória de te-lo...
No gozo de prová-lo e na dor de perde-lo...
No contato desfeito e no rumor já mudo...
No prazer que passou...Nesse nada que é tudo:
O passado!... a lembranca... a saudade... o desejo...

Balbuciando:
Um jardim... Um repuxo...Uma mulher... Um beijo....


(Longo silencio cheio de evocacão e de cismas).


PIERROT, ingenuamente:
É audaciosa demais a tua história...

ARLEQUIM, ríspido:
Enfim,
um Arlequim, Pierrot, é sempre um Arlequim. Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo de mulher!


O SONHO DE PIERROT


II


PIERROT
Eu também, Arlequim, nesta vida ilusória, como todos Pierrots, eu tenho uma história, vaga, talvez banal, mas triste como um cantico...

ARLEQUIM, sarcástico:
Não compreendo um Pierrot que não seja romantico, branco como o marfim, magro como um canico, enchendo o mundo de ais, sem nunca passar disso.

PIERROT
Debochado Arlequim!

ARLEQUIM
Branco Pierrot tristonho...

PIERROT
Teu amor é lascívia!

ARLEQUIM
E o teu amor ? sonho...

PIERROT
É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual, das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim. , misticismo tristonho, que transforma a mulher na incerteza de um sonho....

ARLEQUIM, escarninho:
Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots?

PIERROT
Não! A todos os que amam!
Aos que tem esse dom de encontrar a delícia na intencão da carícia e nunca na carícia...Aos que sabem, como eu, ver que no céu reflete a curva do crescente, um vulto de Pierrette...

ARLEQUIM, zombeteiro:
Eterno sonhador! Tu cres que vive a esmo tudo aquilo que sai de dentro de ti mesmo. Ves, se fitas o céus, garota e seminua, Colombina sentada entre os cornos da lua...Quanta vezes não viste o seu olhar abstrato nos fosfóreos vitrais das pupilas de um gato?

PIERROT
Essas frases cruéis, que mordem como dentes, só mostram, Arlequim, que somos diferentes. Mas minha alma, afinal, é compassiva e boa: não compreendes Pierrot. E Pierrot te perdoa...

ARLEQUIM
Tua história, vai lá! Senta-te nesse banco. Conta-me: 'Era uma vez um Pierrot muito branco...'
A história de um Pierrot sempre nisso consiste... Comeca.

PIERROT narrando:
'Era uma vez... um Pierrot... muito triste... '


Uma voz, na distancia, corta, argentina, a narracáo de Pierrot.


A VOZ
Foi um moco audaz, que vejo
no meu sonho claro e doce,
O amor que primeiro amei..
Abracou-me: deu-me um beijo
e, depois, lento, afastou-se,
e nunca mais o encontrei.

Num ser pálido e doente
resume-se o que consiste
o segundo amor que amei.
Ele olhou-me tristemente...
Eu olhei-o muito triste...
E nunca mais o encontrei!

Esse amor deu-me o desejo
daquele beijo encontrar.
Mas nunca, reunidas, vejo,
a volúpia desse beijo,
e a tristeza desse olhar...


A voz agoniza nos ecos. Pierrot e Arlequim tendem o ouvido procurando no ar mais uma estrofe.


ARLEQUIM
Essa voz...

PIERROT
Essa voz...

ARLEQUIM
Sóde ouvi-la estremeco...

PIERROT
Eu conheco essa voz!

ARLEQUIM
Essa voz eu conheco...


Um sopro de brisa arrepia as plantas.


PIERROT
Escuta...

ARLEQUIM
Escuta...

PIERROT
Ouviste?

ARLEQUIM
Um sussurro...

PIERROT
Um lamento...

ARLEQUIM
Foi o vento talvez.

PIERROT
Sim. Talvez fosse o vento.

ARLEQUIM
Conta a história, Pierrot.

PIERROT continuando:
Numa noite divina
como tu, num jardim, encontrei Colombina. Loira como um trigal e branca como a lua.

ARLEQUIM
Era loira também?

PIERROT
T?o loira como a tua...
Eu descera ao jardim quebrado de fadiga. Dancavam no salão...

ARLEQUIM, interrompendo:
... uma pavana antiga,
e notaste ao luar a cabeleira crespa...

PIERROT
... a anca em forma de lira...

ARLEQUIM
... e a cintura de vespa!

PIERROT
Mãos mimosas, liriais...

ARLEQUIM
Em minúcias te expandes!

PIERROT
Um pé muito pequeno...

ARLEQUIM
Uns olhos muito grandes!
Uma mulher igual a que encontrei na vida?

PIERROT, ofendido:
Enganas-te, Arlequim, nem mesmo parecida!
Era tal a expressão do seu olhar profundo,
que n?o pode existir outro igual neste mundo!
Felinamente ardia a íris verdoenga e dúbia,
como o sinistro olhar de uma pantera núbia.

Esses olhos fatais lembravam traicoeiras
feras, armando ardis nos fojos das olheiras!
Tão vivos que, Arlequim, desvairado, os supus
duas bocas de treva e erguer brados de luz!
Tripudiavam o bem e o mal nos seus refolhos.

ARLEQUIM, cismando:
Essas coisas também ardiam nos seus olhos...

PIERROT
Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo
eu tinha a sensacão de estar sobre um abismo.
N?o sei porque o olhar dessa estranha criatura
era cheio de horror...e cheio de docura!
Eu desejava arder nessas chamas inquietas...


ARLEQUIM
Tendo o fim dos Pierrots?

PIERROT
Tendo o fim dos Poetas!
Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coracão batendo...

ARLEQUIM
E beijaste-lhe a boca.

PIERROT, cismarento:
Não...Para que beijar? Para que ver, tristonho, no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho... Beijo dado, Arlequim, tem amargos ressábios...
Sempre o beijo melhor é o que fica nos l?bios,
esse beijo que morre assim como um gemido,
sem ter a sensacão brutal de ser colhido...

ARLEQUIM
E que disse a mulher?

PIERROT
Suspirou de desejo...

ARLEQUIM , mordaz:
Preferia, bem ves, que lhe desses um beijo!

PIERROT
Não. Ela olhou-me. Olhei... E vi que, comovida, sentiu que , nesse olhar, eu punha a minha vida...


Um silencio cheio de angústias vagas.
Sob o luar claro as almas brancas dos Lírios evocam fantasmas de emocões mortas.
Os espectros das memórias parecem recolher, como numa urna invisível, a saudade romantica de Pierrot...



ARLEQUIM, tristonho:
Essa história, Pierrot, é um pouco merencória...

PIERROT
A história desse olhar é toda a minha história.

ARLEQUIM
E não a viste mais?

PIERROT
Nem sei mesmo se existe...

ARLEQUIM, contendo o riso:
É de fazer chorar! Tudo isso é muito triste!

Tomando-o pelo braco, confidencialmente:
Entretanto, ouve aqui, a guisa de consolo: diante dessa mulher...foste um Pierrot bem tolo!
Aprende, sonhador! Quando surgir o ensejo, entre um beijo e um olhar, prefere sempre um beijo!

PIERROT, desconsolado:
Lamentas-me Arlequim?

ARLEQUIM
Tu não compreendeste: choro não ter colhido o beijo que perdeste.


O AMOR DE COLOMBINA


III

Uma voz que canta se aproxima.


A VOZ
Esse olhar deu-me o desejo
daquele beijo encontrar,
mas nunca , reunidas, vejo
a volúpia desse beijo
e a tristeza desse olhar!

PIERROT , extasiado:
Escutaste, Arlequim, que cantiga tão bela?

ARLEQUIM
Era dela esta voz?

PIERROT
Esta voz era dela...


Arlequim est´ imerso na sombra e um raio de luar ilumina Pierrot. Entra Colombina trazendo uma bracada de flores.


COLOMBINA, vendo Pierrot:
Tu? Que fazes aqui?

PIERROT
Espero-te, divina...A sorte de um Pierrot ? esperar Colombina!

COLOMBINA
Pela terra florida, olhos cheios de pranto, eu procurei-te muito...

PIERROT
E eu esperei-te tanto!

COLOMBINA
Onde estavas, Pierrot? Entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, dizia a cada flor: 'Mimosa flor, não viste um Pierrot muito branco...'

PIERROT
Um Pierrot muito triste...

COLOMBINA
E respondia a flor: 'Sei lá... Nestas campinas passam tantos Pierrots atrás de Colombinas...' E eu seguia e indagava: 'Ó regato risonho: não viste, por acaso, o Pierrot do meu sonho?' E o regato correndo e cantando, dizia: 'Coro e canto e não vejo' - e cantava e corria... Nos céus, ergendo o olhar, eu via, esguio e doente, o pálido Pierrot recurvo do crescente...
Assim te procurei, entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, só porque, meu amor, uma noite, num banco, eu encontrara olhar de um triste Pierrot branco.

PIERROT
Não! Não era um olhar! Ardia nessa chama toda a angú?stia interior do meu peito que te ama
Nosso corpo é tal qual uma torre fechada onde sonha , em seu bojo, uma alma encarcerada.
Mas se o corpo é essa torre em carne e sangue erguida,
O olhar é uma janela aberta para a vida, e, na noite de cisma, enevoada e calma, na janela do olhar se debruca nossa alma


COLOMBINA, languidamente abracada a Pierrot:
Olha-me assim, Pierrot... Nada mais belo existe
que um Pierrot muito branco e um olhar muito triste...
Os teus olhos, Pierrot, são lindos como um verso.
Minh'alma é uma crianca, e teus olhos um berco com cadencias de vaga e, a luz do teu olhar, tenho ansias de dormir, para poder sonhar!
Olha-me assim, Pierrot... Os teus olhos dardejam!
São dois lábios de luz que as pupilas me beijam...
São dois lagos azuis a luz clara do luar...
São dois raios de sol prestes a agonizar...
Olha-me assim Pierrot... Goza a felicidade de poluir com esse olhar a minha mocidade aberta para ti como uma grande flor, meu amor...meu amor...meu amor...

PIERROT
Meu amor!


Colombina e Pierrot abracam-se ternamente. Há, como um cicio de beijos, entre os canteiros dos lírios. Arlequim, vendo-os, sai da treva e, com voz firme, chama.


ARLEQUIM

Colombina!

COLOMBINA, voltando-se assustada:
Quem ??

ARLEQUIM
Sou algué?m, cuja sina foi amar, com Pierrot, a mesma Colombina. Alguém que, num jardim, teve o sublime ensejo de beijar-te e jamais se esquecer desse beijo!

COLOMBINA, desprendendo-se de Pierrot:
Tu, querido Arlequim!

ARLEQUIM, galanteador:
Arlequim que te adora...Que te buscava há tanto e que te encontra agora.

COLOMBINA
E procurei-te em vão, mas te esperava ainda.

ARLEQUIM a Pierrot:
Ela está mais mulher...

PIERROT num ?xtase:
Ai! Ela está mais linda!

ARLEQUIM, enfatuado, a Colombina:
És linda, meu amor! Nessa formas perpassa na cadencia do Ritmo, a leveza da Graca.
Teus bracos musicais, curvos como perfídia, tem a graca sensual de uma estátua de Fídias.
Não sendo inda mulher, nem sendo mais crianca, encarnas, grande viva, a Flor de Liz de Franca...
Sobe da anca uma curva ondulante que chega a teu corpo plasmar como uma anfora grega e é teu vulto triunfal, longo, heráldico, esgalgo, coleante como um cisne e esbelto como um galgo!

COLOMBINA, fascinada:
Lindo!

ARLEQUIM
E não disse tudo... E n?o disse do riso boemio como ébrio e claro como um guizo.
E ainda não falei dessa voz de sereia que, quando chora, canta, e quando ri, gorjeia...

Não falei desse olhar cheio de magnetismo, que fulge como um astro e atrai como um abismo, e do beijo, que como uma carícia louca...
inda canta em meu l?bio e inda sinto na boca!

COLOMBINA com um voz sombria de volúpia:
Fala mais, Arlequim! Tua voz quente e langue tem lascivo sabor de pecado e de sangue.
O venenoso amor que tua boca expele, põe-me gritos na carne e arrepios na pele!

Fala mais, Arlequim! Quando te escuto, sinto o desejo explodir das potencias do instinto,
O brado da volúpia insopitada, a fúria, do prazer latejando em uivos de luxúria!

Fala mais, Arlequim! Diz o ardor que enlouquece a amada que se toca e aos poucos desfalece,
e que, cega de amor, lábio exangue, olhar pasmo, agoniza num beijo e morre num espasmo.

Fala mais, Arlequim! Do monstruoso transporte que, resumindo a vida, anseia pela morte,
dessa angústia fatal, que é o supremo prazer da glória de se amar, para depois morrer!

PIERROT, num soluco:
Ai de mim!...

COLOMBINA, como desperta:
Tu Pierrot!

PIERROT, num fio de voz:
Ai de mim que, tristonho, trazia a tua vida a oferta do meu sonho...Pouca coisa, porém... Uma alma ardente e inquieta arrastando na terra um coracão de poeta.
Na velha Ásia, a Jesus, em Belém, um Rei Mago, não tendo outro partiu através de Cartago, atravessando a Síria, o Mar Morto infinito, a ruiva e adusta Líbia, o mudo e fulvo Egito, as várzeas de Gisej, o Hebron fragoso e imenso, só para lhe ofertar uns granulos de incenso... Também vim, sonhador, pela vida, tristonho, trazer-te o meu amor no incenso do meu sonho.

COLOMBINA com ternura:
Como te amo, Pierrot...


ARLEQUIM
E a mim, cujo desejo te abriu o coracão com a chave do meu beijo? A tua alma era como a Bela Adormecida: o meu beijo a acordou para a glória da vida!

COLOMBINA fascinada:
Como te amo, Arlequim!...

PIERROT, desvairado pelo ciúme, apertando-lhe os pulsos, numa voz estrangulada:
A incerteza que esvoaca desgraca muito mais do que a própria desgraca. Escolhe entre nós dois... Bendiremos os fados sabendo o que é feliz, entre dois desgracados!

ARLEQUIM
Dize: Queres-me bem?

PIERROT:
Fala: gostas de mim?

COLOMBINA, hesitante:

A Pierrot:
Eu amo-te , Pierrot...

A Arlequim:
... Desejo-te, Arlequim...

ARLEQUIM, soturnamente:

A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..

COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão:
Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coracão balanco:


A Arlequim:
O teu beijo é tão quente...

A Pierrot:
O teu sonho é tão manso...

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh'alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,
porque a história do amor pode escrever-se assim:

PIERROT
Um sonho de Pierrot...

ARLEQUIM
E um beijo de Arlequim!